A deputada federal Julia Zanatta (PL-SC) virou alvo de uma escalada de ataques depois de se tornar uma das principais vozes contrárias à aprovação às pressas do fim da escala de trabalho 6×1 na Câmara dos Deputados. As hostilidades passaram das redes sociais para os corredores do Congresso nesta quarta-feira (27), quando a parlamentar afirma ter sido agredida verbalmente por uma dirigente sindical logo após uma sessão da comissão especial que analisou o tema.
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Segundo o relato da deputada nas redes sociais, a autora das ofensas seria a vice-presidente do Sindicato dos Comerciários de São José dos Campos, no interior de São Paulo. Zanatta diz que foi cercada aos gritos em um corredor da Casa e que a sindicalista precisou ser contida por pessoas no local para não avançar fisicamente contra ela.
“A vice-presidente do Sindicato dos Comerciários de São José dos Campos me atacou no meio do corredor de uma maneira digna de internação compulsória. Aos gritos de nazista e fascista e falando da tiara que eu uso, ela teve que ser segurada para não partir para cima de mim”, escreveu a parlamentar.
A “tiara” citada pela deputada é uma Blumenkrone, coroa de flores tradicional da cultura germânica, comum em festividades de Santa Catarina, estado de forte colonização alemã. O acessório, que Zanatta costuma usar, foi transformado em alvo de deboche pelos críticos.
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O ataque no corredor
Um vídeo que circula nas redes sociais mostra a deputada trocando provocações com uma mulher na saída do colegiado, em meio ao clima de forte tensão que marcou os debates. As imagens não permitem confirmar o conteúdo completo da discussão. Zanatta afirma que mantinha uma conversa respeitosa com um manifestante quando foi interrompida.
“Enquanto eu debatia de maneira saudável com um rapaz que me abordou e que estava de forma respeitosa falando comigo, ela se atravessou e não parava de gritar. Seus olhos estavam quase saltando do corpo”, relatou.
A parlamentar classificou o episódio como inadmissível, disse que sua equipe já identificou a mulher e afirmou que o caso será encaminhado à Polícia Legislativa da Câmara.
Mais de cem ataques e ameaça de morte
O confronto no corredor foi apenas o ponto mais visível de uma onda de hostilidades. Desde que passou a atuar na comissão, Zanatta afirma ter recebido mais de uma centena de ataques nas redes sociais. A equipe da deputada já formalizou ao menos 16 denúncias à Polícia Legislativa por mensagens com injúria, difamação, incitação ao crime e ameaça. Em uma das audiências, a parlamentar relatou ter recebido uma mensagem dizendo que ela merecia “cinco tiros na cara” por seu posicionamento.
Zanatta afirma que sua posição nunca foi contra discutir a jornada de trabalho, mas contra aprovar a mudança de qualquer jeito, sem transição e sem compensação a quem emprega. Segundo a deputada, a conta da redução recairia sobre o trabalhador e sobre as pequenas empresas, que concentram a maior parte dos empregos no país.
“É justo e é lindo querer um dia a mais de folga, mas quem vai pagar essa conta? O trabalhador brasileiro, que já está endividado”, afirmou em uma das sessões, antes de ser vaiada por manifestantes.
A fake news das “292 folgas”
Em paralelo às ofensas, passou a circular nas redes uma peça de desinformação afirmando que Zanatta teria “folgado 292 dias em 2025”. A alegação foi desmentida pela própria Câmara dos Deputados, no serviço de checagem Comprove.
Conforme a Câmara, o cálculo parte dos 365 dias do ano e desconta os dias com sessão de votação no plenário, sem considerar o resto do trabalho parlamentar. Só que em 2025 a Casa realizou apenas 121 sessões de votação no plenário. Por essa mesma régua, um deputado com presença perfeita “folgaria” 244 dias, já que a Câmara não vota em plenário nos demais dias. A conta ignora o trabalho em comissões, as agendas no estado e os recessos previstos no regimento.
Os números oficiais contam outra história. Zanatta participou de 73 das 121 sessões de votação, o equivalente a 60,3% de presença. Das 46 ausências registradas, 44 foram justificadas por licença-maternidade e apenas 2 ficaram sem justificativa, ou seja, 1,65% do total. Para efeito de comparação, levantamento sobre o período 2023 a 2025 apontou que os 20 deputados mais ausentes da Casa somam mais de 700 faltas sem justificativa. A deputada catarinense não aparece nesse grupo.
Licença-maternidade não é folga, é impedimento legal
A licença-maternidade não é uma “folga”. Ela integra a lista oficial de ausências justificadas da Câmara, ao lado de missão autorizada e doença comprovada, e não gera desconto salarial nem registro de falta. Mais do que um direito de se ausentar, é um impedimento: a parlamentar de licença fica proibida de votar, apresentar requerimentos ou praticar atos legislativos, ainda que queira.
Na prática, tratar esse período como “folga” equivale a dizer que uma parlamentar deveria perder presença, ou até o mandato, por ter dado à luz.
O precedente que a própria esquerda criou
A regra que hoje protege qualquer deputada em licença-maternidade nasceu de uma luta de parlamentares de esquerda que enfrentaram exatamente a mesma cobrança. Antes de 2021, o painel eletrônico da Câmara registrava as deputadas em licença-maternidade apenas como “ausentes”, sem distinção.
As deputadas Áurea Carolina (PSOL-MG) e Talíria Petrone (PSOL-RJ) chegaram a figurar em rankings como “as mais faltosas de 2020” justamente por estarem de licença após o parto. A deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) precisou explicar publicamente que estava impedida de votar. Na época, a bancada feminina protocolou requerimento e a Mesa Diretora publicou ato determinando que a licença-maternidade passasse a ser sinalizada nos painéis.
Sâmia Bomfim classificou o registro indevido como “violência política contra a mulher”. O mesmo critério que foi denunciado como violência de gênero quando atingia deputadas de esquerda aparece agora aplicado contra uma deputada de direita.
Procurada, a direção do Sindicato dos Comerciários de São José dos Campos não havia se manifestado publicamente sobre a versão apresentada por Zanatta até a última atualização. Nesta mesma quarta-feira (27), a Câmara dos Deputados aprovou em dois turnos a PEC que põe fim à escala 6×1, por 472 votos a 22 no primeiro turno e 461 a 19 no segundo. O texto reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem perda salarial, e agora segue para análise do Senado.
Fonte: Jornal Razão