Um alarmante dado divulgado nesta quarta-feira (3) revela que um em cada quatro brasileiros não sabe que o câncer é uma doença que pode ser prevenida. A informação faz parte do relatório Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, que investigou como os cidadãos percebem e se relacionam com hábitos que podem influenciar o desenvolvimento da doença.
Baixo conhecimento sobre prevenção e fatores de risco
O estudo, que entrevistou 6,5 mil pessoas em todo o país com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do Inca, aponta que, apesar de alguns fatores de risco como o fumo serem amplamente reconhecidos (90,5% sabem que fumar causa câncer), outros são menos percebidos. O sedentarismo, por exemplo, é visto como fator de risco por apenas 48,3% dos brasileiros.
Outros hábitos que não são amplamente associados ao câncer incluem:
- Bebidas alcoólicas: apontadas como fator de risco por 71,3% da população.
- Alimentos embutidos (presunto, salsicha): reconhecidos por 70,7%.
- Alimentos ultraprocessados (macarrão instantâneo, salgadinhos): associados ao câncer por 65,6%.
- Sobrepeso e obesidade: conhecidos por 54,1%.
- Carne vermelha: reconhecida por apenas 27,5%.
A Chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, Luciana Grucci Moreira, atribui a diferença na percepção à efetividade de políticas públicas e campanhas informativas, como as implementadas ao longo de décadas para combater o tabagismo. Ela defende a expansão de ações semelhantes para outros fatores de risco.
O relatório também destacou o desconhecimento sobre fatores de proteção. A cada dez entrevistados, quatro não sabiam que o aleitamento materno é um fator de proteção contra o câncer de mama.
Jovens e fatores de risco
Um ponto de atenção do estudo é o comportamento dos jovens. Pessoas com até 24 anos são as que mais consomem alimentos e bebidas associados a fatores de risco sem intenção de reduzir o consumo. Isso inclui ultraprocessados (32,3%), bebidas adoçadas (24,4%), embutidos (29,5%) e carne vermelha (49,1%).
No que diz respeito ao consumo de bebidas alcoólicas, substância ligada a pelo menos oito tipos de câncer, os jovens também se destacam. 16,9% dos entrevistados com até 24 anos afirmaram beber e não ter intenção de reduzir o hábito, percentual superior aos grupos de 25 a 59 anos (8,7%) e acima de 60 anos (7,1%).
Desigualdades e políticas públicas
A pesquisa também evidenciou desigualdades no conhecimento e na ação em relação à prevenção. Pessoas com menor renda apresentaram menor proporção de conhecimento sobre o sedentarismo como fator de risco (45% entre quem ganha até R$ 2 mil) em comparação com os de maior renda (59,6% entre quem ganha acima de R$ 10 mil).
Além disso, entre os que reconhecem estar com excesso de peso, apenas 22,9% das pessoas com renda menor que R$ 2 mil afirmaram estar fazendo algo a respeito, contra mais de 40% entre os de renda acima de R$ 3 mil.
Luciana Moreira, do Inca, ressalta a necessidade de não apenas informar, mas também de criar políticas públicas que promovam escolhas mais saudáveis, considerando fatores como acesso, renda e preço dos alimentos. Ela também enfatiza a importância de ambientes seguros e acessíveis para a prática de atividades físicas.
Estimativas de câncer em alta
A divulgação deste relatório ocorre em um momento de preocupação com o aumento das estimativas de câncer no Brasil. Segundo o Inca, são esperados 781 mil casos novos de câncer por ano no triênio 2026/2028, um aumento de 10,9% em relação ao período anterior. Esse crescimento é impulsionado pelo envelhecimento da população e por hábitos de vida não saudáveis.
Os resultados do estudo reforçam a urgência de investir em estratégias de comunicação e políticas públicas eficazes para aumentar a percepção da população sobre os fatores de risco e proteção contra o câncer, visando a redução da incidência da doença no futuro.
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