“Vou fazer minha meta. E se alguma coisa der errado, você vai me visitar na cadeia, pelo menos. E eu quero visita íntima ainda.” A frase foi dita por Ana Paula Ribeiro da Silva, 43 anos, ao amante Adilton Raulino Schardosim, 42, em um áudio de WhatsApp enviado no dia 4 de fevereiro de 2026 — a mesma noite em que, conforme a Polícia Civil, ela envenenou o próprio marido com chumbinho em Videira, no Meio-Oeste de Santa Catarina.
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A vítima era Pedro Rodrigues Alves, de 54 anos, dono da Funerária Rodrigues Alves, empresário conhecido na região. Ele morreu em 15 de fevereiro, após 11 dias internado na UTI do Hospital Salvatoriano Divino Salvador. A Justiça de Santa Catarina aceitou a denúncia do Ministério Público e Ana Paula e Adilton são réus por homicídio qualificado com cinco qualificadoras: motivo torpe, emprego de veneno, meio cruel, dissimulação e recurso que dificultou a defesa da vítima.
Apuração exclusiva do Jornal Razão.
A denúncia foi apresentada pela promotora de Justiça Bruna Vieira Pratts, da 3ª Promotoria de Justiça da Comarca de Videira. A investigação foi conduzida pela Delegacia de Investigação Criminal de Videira, sob responsabilidade do delegado Édipo Flamia Hellt.
Envenenamento diário por um mês
De acordo com a Polícia Civil, Ana Paula envenenou Pedro diariamente ao longo de pelo menos um mês. A investigação identificou três substâncias: soda cáustica misturada nos medicamentos da vítima, metanol colocado na cerveja que ele consumia e, no dia 4 de fevereiro, uma substância do grupo dos organofosforados e carbamatos — o chumbinho —, que provocou o envenenamento fatal.

Segundo o delegado Édipo Flamia, a investigada teria se aproveitado da repercussão nacional da chamada crise do metanol para tentar encobrir o crime e fazer a morte parecer natural.
Câmeras internas registraram o dia do crime
Conforme apuração exclusiva do Jornal Razão, câmeras de monitoramento internas apreendidas na residência da vítima registraram a movimentação no dia dos fatos. As imagens mostram Ana Paula e Pedro juntos na cozinha por volta das 19h do dia 4 de fevereiro, onde ficaram cerca de 10 minutos. Pouco depois, Pedro aparece passando pela sala comendo. Por volta das 21h15, Ana Paula é vista com outra roupa, aparentando estar arrumada para levar o marido ao hospital. No dia seguinte, bombeiros aparecem nas imagens e, às 21h13, Pedro é registrado saindo da casa em cadeira de rodas.
Pedro deu entrada na UPA de Videira na noite do dia 4 e foi internado no hospital no dia seguinte, sendo encaminhado à UTI em 6 de fevereiro. O laudo da Polícia Científica identificou no sangue da vítima nordazepam, diazepam, fentanil, morfina e atropina, entre outras substâncias. Exame de colinesterase apontou nível de 158,0 U/L — inibição grave da enzima, compatível com intoxicação por organofosforado. Mesmo com tratamento intensivo, Pedro não resistiu e morreu em 15 de fevereiro.
“Ela orava para ele morrer”, diz filha
Enquanto o marido agonizava na UTI, Ana Paula ia ao hospital e orava ao lado da família. A filha da vítima relatou publicamente o comportamento da madrasta. “O que mais me dói era ela em cima dele orando junto comigo e chorando no hospital. Enquanto eu orava pela vida dele, ela orava para ele falecer logo, fingida”, relatou a filha em publicação nas redes sociais.
Dinheiro desviado durante internação
A análise bancária da Polícia Civil revelou movimentação atípica nas contas de Ana Paula após a internação do marido. Conforme informações compartilhadas com o Jornal Razão, entre 6 e 21 de fevereiro, enquanto Pedro estava na UTI, foram transferidos R$ 16.107,44 da conta da Funerária Rodrigues Alves para a conta pessoal da investigada. Outros R$ 12.557,00 foram recebidos por Ana Paula a partir da conta de sua irmã, a irmã da investigada, que confirmou em depoimento ter intermediado as transferências a pedido da investigada.
A investigação também apontou que Ana Paula pagou R$ 300,00 a um técnico de enfermagem do hospital para obter informações sobre o estado de saúde de Pedro durante a internação. O profissional foi desligado pela instituição de saúde, que divulgou nota informando que não compactua com condutas que violem princípios éticos.
Áudios revelam planejamento do crime
Os áudios de WhatsApp recuperados da nuvem Google de Adilton, obtidos após decisão judicial de quebra de sigilo, registraram o planejamento do crime ao longo de meses. As transcrições foram compartilhadas com o Jornal Razão.
Em novembro de 2025, Ana Paula já reclamava do marido ao amante e dizia: “por que que essa desgraça não morre? Nada mata esse homem”. Em 5 de janeiro de 2026, ela falou sobre o patrimônio que ficaria após a morte de Pedro: “até então essa carniça vai logo, aí eu vou ter dinheiro pra comprar”, referindo-se a uma casa para morar com Adilton.

Em 7 de janeiro, Ana Paula contou ao amante que havia comprado metanol e planejava colocá-lo na cerveja do marido. Em seguida, afirmou: “tem que ser tudo muito bem planejado. Tem que ser natural o negócio pra não se complicar. Deixa que eu vou dar conta do serviço aqui, você vai ver.”

No dia 10 de janeiro, relatou que ia “abrir mais umas cápsulas” e “peneirar” uma substância para inserir nos remédios de Pedro. Em 11 de janeiro, comemorou ao amante: “disse que não tá bem. Melhor ainda, vamos deixando. Sinal que tá dando reação.”

Em 17 de janeiro, Ana Paula disse: “tô fazendo esse negócio aí. Não tá bem esse abençoado. Escutei que tava vomitando de manhã. Vai dar certo, amor, eu vou seguir com meus planos.” Ela também falava em ansiedade para viver com Adilton: “pra isso acontecer logo, amor do céu!”

Adilton respondia com incentivo direto. Em 13 de janeiro, disse à amante: “esse homem aí é o que tem que fazer, tu sabe, né? Não tem mais o que deixar essa peste aí te incomodando.”

Em 29 de janeiro, Adilton afirmou: “nós só temos mais um detalhezinho. Pode ficar tranquila, você tem o meu apoio e a gente vai resolver isso.” No dia 4 de fevereiro, dia do envenenamento fatal, ele enviou áudio dizendo estar “na expectativa” e que seria a “melhor notícia”.
Caso extraconjugal e planos de vida juntos
Conforme apuração do Jornal Razão, Ana Paula e Adilton mantinham um relacionamento extraconjugal há mais de um ano. Fotos e capturas de tela encontradas na nuvem do investigado confirmaram o caso amoroso. O casal planejava morar junto em Lebon Régis após a morte de Pedro e Ana Paula chegou a pesquisar imóveis na cidade.
A ex-mulher de Pedro, a ex-mulher de Pedro, se manifestou publicamente para esclarecer que não tem envolvimento no caso. “As pessoas investigadas são a atual companheira dele e o amante dela. Peço que não confundam meu nome com essa tragédia”, publicou nas redes sociais.
Réus presos aguardam Tribunal do Júri
Ana Paula está presa no Presídio Feminino de Chapecó. Adilton está recolhido na Cadeia Pública de Palmas, no Paraná. Ambos permaneceram em silêncio durante os interrogatórios. O MPSC requereu reparação de R$ 100 mil aos sucessores da vítima e busca levar o caso ao Tribunal do Júri.
Apuração exclusiva do Jornal Razão com informações compartilhadas por fontes ligadas à investigação.
Fonte: Jornal Razão