O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, confirmou nesta quarta-feira (13) que pediu ao então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, o financiamento privado do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em nota oficial, o senador chamou o aporte de “patrocínio privado para um filme privado” e voltou a defender a instalação da CPI do Banco Master.
Clique e receba notícias do Jornal Razão em seu WhatsApp: Entrar no grupo
A confirmação ocorreu após reportagem do Intercept Brasil divulgar mensagens, áudios, documentos e comprovantes bancários que apontariam negociação direta entre Flávio e Vorcaro. Conforme o site, o valor total negociado foi de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época. Pelo menos US$ 10,6 milhões, ou aproximadamente R$ 61 milhões, teriam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos.
Em mensagens reveladas pela reportagem, Flávio trata Vorcaro como “irmão”. A última troca confirmada ocorreu em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando ele tentava embarcar para Dubai. Dois dias depois, em 18 de novembro, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central, após uma fraude de R$ 47 bilhões apontada no Fundo Garantidor de Crédito.
ASSISTA AO VÍDEO
A nota e o ataque ao governo Lula
Logo após a publicação da reportagem, Flávio divulgou a nota oficial em suas redes sociais. No texto, o senador defendeu a abertura da CPI do Banco Master e separou o que considera o seu caso das demais investigações sobre o banqueiro.
“Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet”, afirmou o senador.
Na continuação da nota, Flávio sustentou que conheceu Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, “quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”. O senador também negou ter oferecido vantagens em troca, promovido encontros privados fora da agenda ou intermediado negócios com o governo. “Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do MASTER JÁ”, concluiu.
“O PIX é do Bolsonaro. O Master é do Lula”
A linha de defesa em tom de contra-ataque ganhou força simbólica em uma aparição pública recente do senador. Em ato político ao lado de apoiadores, Flávio Bolsonaro apareceu usando uma camisa com a frase “O PIX é do Bolsonaro. O Master é do Lula”. A peça virou bandeira da militância bolsonarista para tentar deslocar o foco do episódio para a relação do banqueiro preso com integrantes e aliados do atual governo federal.
O argumento utilizado pelo senador e por seus aliados é o de que o pedido de patrocínio teria sido feito com recurso privado, sem benefício de leis de incentivo e sem qualquer contrapartida de Estado, ao contrário do que estaria sendo investigado em outras frentes envolvendo o Banco Master.
O áudio da cobrança
Entre o material divulgado pelo Intercept Brasil está um áudio que teria sido enviado por Flávio em 8 de setembro de 2025. Na gravação, o senador relata estar preocupado com o atraso nos pagamentos da produção e com o risco para a imagem internacional do projeto.
“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim”, afirmou Flávio. Em outro trecho, o senador completou: “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo”.
O filme “Dark Horse”
O longa é dirigido pelo cineasta iraniano-americano Cyrus Nowrasteh e tem roteiro do deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário especial da Cultura no governo Bolsonaro. O ator Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, está escalado para viver Jair Bolsonaro nas telas.
A trama retrata a trajetória de Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018, com foco no atentado a faca sofrido pelo então candidato em Juiz de Fora (MG). A estreia está marcada para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição presidencial em que Flávio pretende disputar.
Repercussão no Congresso
A reportagem repercutiu imediatamente no Congresso. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) anunciou que pedirá à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República a abertura de investigação contra o senador e o bloqueio de bens dos envolvidos. Aliados de Flávio, como o ex-ministro Fabio Wajngarten, pediram calma. “Todo frenesi durará poucos minutos. Se acalmem”, escreveu Wajngarten nas redes sociais.
Até o momento, não havia confirmação oficial sobre a abertura de uma investigação formal contra o senador. O Banco Master segue em processo de liquidação pelo Banco Central, e Daniel Vorcaro permanece preso. O caso segue em desdobramento.
Fonte: Jornal Razão