A ameaça do El Niño já começou a mudar a rotina de Santa Catarina antes mesmo de as chuvas chegarem. A Prefeitura de Rio do Oeste, no Alto Vale do Itajaí, anunciou oficialmente que cancelou a 22ª edição da Festa Estadual da Polenta (Fepol), um dos maiores eventos culturais da região, que aconteceria nos dias 17, 18 e 19 de julho. A decisão é preventiva e está diretamente ligada às previsões do fenômeno climático que vem tirando o sono de meteorologistas, gestores públicos e moradores em todo o estado.
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Rio do Oeste tem pouco mais de 8 mil habitantes e carrega um título que ninguém quer ter: é conhecida como a primeira cidade a alagar e a última a secar quando as chuvas castigam o Alto Vale. A cidade fica às margens do Rio Itajaí do Oeste, tem calha de rio baixa, relevo plano e escoamento lento, uma combinação que transforma qualquer chuva forte em emergência.
80% da cidade debaixo d’água
O histórico fala por si. Em 2015, entre 70% e 80% de Rio do Oeste ficou submersa, com prejuízos de R$ 18 milhões. A enchente de 1983, considerada uma das piores da história do Vale do Itajaí, devastou a cidade. Em 1995, na véspera de Natal, a água voltou a tomar as ruas. E entre 2022 e 2024, o município precisou decretar emergência mais de uma vez. Rio do Oeste não tem o luxo de arriscar.
O prefeito Bruno Pessatti reconheceu que a festa tem enorme importância cultural e econômica, mas foi direto: a prioridade é a segurança da população. Conforme a Prefeitura, o evento não está cancelado de forma definitiva e retornará em 2027 “ainda mais estruturado, organizado e preparado”.
O alerta que já foi dado
A decisão de Rio do Oeste não acontece no vazio. Nas últimas semanas, o Jornal Razão vem acompanhando de perto a escalada dos alertas sobre o El Niño em Santa Catarina. O meteorologista catarinense Piter Scheuer, um dos mais respeitados do estado, afirmou estar “abismado” com a falta de alerta e classificou o fenômeno como super El Niño, com potencial de superar episódios históricos como o de 1983.
“Vai ter tornados, vai ter enchente, vai ter deslizamentos. O que vocês estão esperando?”
Scheuer chegou a ser criticado por alguns colegas, mas rebateu em novo vídeo: “Podem me criticar, a minha parte eu fiz”.
Números que assustam
Conforme o INMET e a Epagri/Ciram, a probabilidade de o El Niño se estabelecer entre junho e agosto deste ano supera 80%. A Epagri aponta 25% de chance de o fenômeno atingir a categoria de muito forte. O impacto esperado inclui chuvas muito acima da média no Sul do Brasil, com maior intensidade prevista justamente para o período entre julho e a primavera, exatamente quando a Festa da Polenta aconteceria.
O El Niño 2026 está se formando mais rápido que o esperado. As anomalias de temperatura no Oceano Pacífico Equatorial já chamam atenção dos órgãos de monitoramento, e a previsão é de que o fenômeno ganhe força a partir de julho.
SC já se movimenta
Rio do Oeste não é a única cidade que decidiu agir antes de o El Niño chegar. Em Itajaí, a Prefeitura testou nesta sexta-feira (8) um sistema de bombeamento capaz de esvaziar um campo de futebol em três horas e retirou quase 50 caminhões de lodo do Ribeirão da Murta. Em Blumenau, a Câmara aprovou novas regras de drenagem para enfrentar as enchentes. No Vale do Rio Tijucas, o Exército Brasileiro mobilizou 200 militares para um exercício com a Defesa Civil. E o Governo do Estado convocou a população a cadastrar o CEP para receber alertas oficiais.
Tradição italiana adiada
A Festa da Polenta celebra a herança dos imigrantes italianos que colonizaram o Alto Vale e é um dos eventos mais tradicionais de Rio do Oeste, com gastronomia típica, música e tradições que movimentam o turismo e a economia do município. A 22ª edição já estava confirmada para julho.
A transferência para 2027 é a primeira vez que o evento é adiado por risco climático. O município já realiza obras de dragagem e revitalização fluvial no Rio Itajaí do Oeste, iniciadas em 2025, mas a prevenção segue como principal foco da gestão.
A postura de Rio do Oeste reflete um cenário que vem se desenhando em todo o estado: quando o assunto é El Niño, Santa Catarina não quer repetir os erros do passado. E quem conhece de perto o que a água faz com essa cidade sabe que cancelar uma festa é o menor dos sacrifícios.
Fonte: Jornal Razão