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Doméstica escravizada por casal milionário em Florianópolis receberá indenização de R$ 10 mil

Um corretor brasileiro classificado pela revista Arabian Business como uma das “lendas” do mercado imobiliário de luxo dos Emirados Árabes, com vendas que ele próprio estima em mais de US$ 1 bilhão, é investigado por manter uma trabalhadora doméstica da Etiópia em condições análogas à escravidão dentro de um condomínio fechado no bairro Rio Tavares, […]


Um corretor brasileiro classificado pela revista Arabian Business como uma das “lendas” do mercado imobiliário de luxo dos Emirados Árabes, com vendas que ele próprio estima em mais de US$ 1 bilhão, é investigado por manter uma trabalhadora doméstica da Etiópia em condições análogas à escravidão dentro de um condomínio fechado no bairro Rio Tavares, em Florianópolis.


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Fabricio Saltini e sua companheira, Nour Salem, foram identificados como os empregadores da mulher, de 34 anos, que conseguiu fugir da residência no início de maio levando apenas a roupa do corpo e um celular.

Jornada de 15 horas e passaporte retido

Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho, vinculada à Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a mulher foi recrutada nos Emirados Árabes por meio da Maids Domestic Workers Services L.L.C e embarcou para o Brasil sem qualquer visto de trabalho válido.

A fiscalização apurou que a rotina imposta à trabalhadora começava às 7h e só terminava às 22h30, sem folga sequer aos finais de semana. Além da limpeza e do preparo das refeições, ela era responsável por cuidar dos filhos do casal e dos animais de estimação da família.

A trabalhadora descreveu aos fiscais uma rotina de humilhações constantes, com gritos, insultos e ameaças que chegaram a tentativas de agressão física. O casal também mantinha sob sua posse o passaporte e os demais documentos da vítima, exigindo o pagamento de supostas dívidas com passagem aérea, alimentação e visto como condição para devolvê-los.

A fuga

Como a mulher não fala português, ela conseguiu pedir ajuda nas ruas de Florianópolis utilizando um aplicativo de tradução automática no celular. Após ser localizada, foi acolhida por equipes da rede pública de segurança, saúde e assistência social, com apoio do Espaço Acolher e do Escritório de Atenção ao Migrante. O atendimento contou com intérprete intercultural e equipe multidisciplinar.

Mesmo após deixar a residência, segundo os fiscais, a trabalhadora continuou recebendo mensagens intimidatórias e acusações dos empregadores, incluindo alegações de que ela teria furtado um cachorro da família.

Acordo com o MPT-SC

Na quarta-feira (21), o Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina (MPT-SC) firmou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o casal. Pelo acordo, Fabricio e Nour reconheceram o vínculo de emprego doméstico da trabalhadora no período de 13 de março a 8 de maio de 2026 e se comprometeram a regularizar toda a relação trabalhista, incluindo registro formal, recolhimento de encargos sociais, FGTS, férias e demais direitos.

As obrigações financeiras totalizam R$ 15,5 mil: R$ 10 mil de indenização por dano moral individual, R$ 5 mil para custeio do retorno ao país de origem e R$ 500 para despesas imediatas da viagem. Em caso de descumprimento, o TAC estabelece multa de R$ 1 mil por dia pelo atraso na indenização e R$ 3 mil por cláusula descumprida nas demais obrigações.

O contraste

O contraste entre o valor do acordo e o patrimônio movimentado pelo corretor chama atenção. Fabricio Saltini é sócio-gerente da Eden Realty, antiga Crompton Saltini, corretora de imóveis de ultra luxo em Dubai. Em agosto de 2025, ele intermediou a venda de uma mansão em Emirates Hills por US$ 71 milhões, a transação mais cara já registrada para uma villa individual naquela comunidade. Seu perfil profissional indica vendas pessoais superiores a 2 bilhões de dirhams e múltiplas transações acima de 100 milhões de dirhams.

Em uma rede social voltada ao mercado profissional, Saltini declarava que direitos civis, direitos humanos, alívio à pobreza e serviço social estavam entre suas prioridades. Desde a revelação do caso, o casal privou as redes sociais pessoais.

A reportagem procurou a empresa onde ele atua, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.

Próximos passos

A Auditoria-Fiscal do Trabalho solicitou diligências para localização e apreensão de documentos da vítima e encaminhou o caso para apuração de possíveis crimes previstos no Código Penal, na Lei de Migração e em tratados internacionais de direitos humanos. O caso segue sob acompanhamento do MPT-SC.



Fonte: Jornal Razão

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