
O uso de telas faz parte da rotina de muitas crianças, mas o excesso pode trazer impactos para a saúde, como ansiedade, alterações de humor, redução do convívio social com outras crianças e outros prejuízos. Nas férias, o acesso à tecnologia merece ainda mais atenção. Longe da rotina escolar, que inclui atividades, brincadeiras e momentos de interação, muitas crianças passam a ter mais tempo livre em casa. Com isso, parte desse período pode acabar sendo ocupada por horas em frente ao computador, à TV e ao celular, assistindo a vídeos, séries, filmes ou jogando.
Para entender melhor o impacto das telas na infância, o conteúdo do TechTudo reúne orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria e conta com a contribuição das pediatras Silvia Nigro e Lucila Faria, do Hospital Sírio-Libanês. Ao longo do texto, você verá os principais riscos do excesso de exposição, o tempo recomendado para cada faixa etária, os sinais de alerta e estratégias para equilibrar o uso durante as férias. Confira!
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TechTudo mostra os perigos do excesso de tela à saúde das crianças durante o período de férias
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1. Por que o tempo de tela aumenta durante as férias?
É natural que o tempo de tela das crianças aumente durante as férias. Com a pausa das aulas, elas passam mais tempo em casa e deixam de seguir a rotina escolar, que inclui brincadeiras lúdicas, convivência com outras crianças e atividades voltadas ao desenvolvimento das habilidades cognitivas, motoras, sociais e emocionais. A dinâmica em casa, porém, costuma ser diferente.
Quando os pais ou responsáveis precisam trabalhar fora ou em home office e não conseguem acompanhar os filhos durante todo o dia, celulares, tablets, televisores e videogames acabam ocupando parte desse tempo livre. Além disso, a falta de uma rotina estruturada e o tédio comum nesse período podem favorecer o uso excessivo dos dispositivos eletrônicos.
Durante as férias, as crianças ficam com mais tempo livre e, por isso, ficam mais tempo em frente às telas
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Embora a matrícula na educação básica seja obrigatória a partir dos 4 anos, conforme prevê a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, muitas crianças menores também frequentam creches e escolas, principalmente quando os responsáveis trabalham. Por isso, a mudança na rotina durante as férias também afeta bebês e crianças de diferentes idades, que deixam de contar com parte dos estímulos e atividades oferecidos por esses ambientes.
2. Quais são os principais riscos do excesso de tela?
O uso excessivo de telas em crianças e adolescentes pode causar distúrbios do sono, ansiedade, depressão, alterações de humor e dificuldades nas interações sociais. Além disso, pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo e o desempenho escolar, ao influenciar a capacidade de concentração, a memória e as habilidades de leitura e escrita. Essas conclusões fazem parte da revisão integrativa Saúde mental: os riscos em crianças e adolescentes pelo uso excessivo de telas, publicada em 2024 na Revista Sociedade Científica.
Segundo a pediatra Silvia Nigro, responsável pelo Núcleo de Medicina do Adolescente do Hospital Sírio-Libanês, o problema surge quando o tempo de tela substitui experiências fundamentais para o desenvolvimento, como brincar, praticar atividade física, conviver com outras pessoas e descansar adequadamente. Ela explica que também é importante observar se esse hábito está interferindo no apetite e no desempenho escolar. Com isso, quando as telas passam a interferir nessas áreas, é sinal de que o tempo de uso deixou de ser saudável.
Outro ponto de atenção é a qualidade do sono. A luz azul emitida por celulares, tablets e computadores reduz a produção de melatonina
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Outro ponto de atenção é a qualidade do sono. A luz azul emitida por celulares, tablets e computadores reduz a produção de melatonina, hormônio que regula o ciclo do sono. Somado a isso, o excesso de estímulos provocado por jogos e vídeos mantém o cérebro em estado de alerta, dificultando o relaxamento e fazendo com que a criança demore mais para adormecer. Com isso, a recomendação da pediatra Lucila Faria, do Hospital Sírio-Libanês, é desligar as telas pelo menos uma hora antes de dormir.
A profissional explica que, para crianças que já apresentam dificuldade para pegar no sono, esse intervalo pode chegar a duas horas.
“É necessário fazer uma transição para o descanso, com atividades tranquilas, como banho, leitura e conversas em família”, destaca.
Diante disso, quando o uso de telas começa a alterar o sono, é importante rever a rotina e estabelecer novos limites. No entanto, os impactos do excesso de tempo de tela vão além das noites mal dormidas.
Crianças com excesso de tela podem apresentar sintomas de ansiedade, alterações de humor e dormir mal
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Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o excesso de tempo de tela também está associado ao sedentarismo e à redução da prática de atividades físicas.
“A criança precisa correr, brincar, pular, cair, levantar e explorar o ambiente para se desenvolver de forma saudável. O movimento faz parte do desenvolvimento motor, emocional e social. Quando a rotina fica muito restrita às telas, ela perde oportunidades importantes de movimento e interação”, pontua Lucila.
3. Quanto tempo de tela é recomendado para cada idade?
Diante dos impactos associados ao uso excessivo de dispositivos eletrônicos, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) estabelece limites de exposição às telas conforme a idade da criança e do adolescente. Confira as recomendações para cada faixa etária:
Até 2 anos: evitar a exposição às telas, mesmo de forma passiva;
De 2 a 5 anos: limitar o tempo de telas a, no máximo, 1 hora por dia, sempre com acompanhamento de pais, cuidadores ou responsáveis;
De 6 a 10 anos: limitar o tempo de telas entre 1 e 2 horas por dia, também com a supervisão;
De 11 a 18 anos: limitar o uso de telas e jogos de videogame a 2 ou 3 horas por dia e evitar que o hábito prejudique o sono, como passar a noite jogando.
Na prática, porém, a realidade é diferente. Um levantamento da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, publicado em agosto de 2025, mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos têm contato diário com telas. Já entre 4 e 6 anos, o índice chega a 94%. Os próprios responsáveis também percebem esse excesso, já que quatro em cada dez afirmam que as crianças passam mais tempo do que deveriam em frente a TVs, tablets e celulares.
Os impactos desse uso também são percebidos pelas famílias. Segundo o estudo, 56% dos responsáveis afirmam que o excesso de telas prejudica a saúde das crianças, afetando a visão e os movimentos, enquanto cerca de 40% relatam que os dispositivos deixam os pequenos mais agitados e agressivos. Ainda assim, para parte dos entrevistados, as telas funcionam como uma rede de apoio, ajudando a manter a criança ocupada (18%) ou a evitar que ela se sinta sozinha (9%).
Diante disso, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda estabelecer momentos de desconexão e convivência familiar. Outra orientação é evitar o uso de telas durante as refeições, não permitir que crianças e adolescentes fiquem isolados nos quartos com televisão, computador, tablet ou celular e estimular que esses dispositivos sejam utilizados em espaços comuns da casa. A entidade também recomenda criar regras para o uso de aparelhos e aplicativos digitais, com medidas de segurança, como senhas e filtros adequados para cada idade.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar o uso de telas durante as refeições
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4. Sinais de que a criança está usando telas em excesso
Existem alguns sinais que podem indicar que a criança está passando mais tempo em frente às telas do que o recomendado para a sua idade. Por isso, é importante que pais e responsáveis observem mudanças no comportamento e na rotina e procurem o pediatra caso percebam algo fora do comum. Entre os principais sinais de alerta estão:
Dificuldade para se autorregular após interromper o uso das telas, com reações como choro, irritação ou resistência ao desligar o dispositivo;
Dificuldade para dormir ou alterações na rotina de sono;
Queda no rendimento escolar e dificuldade de concentração;
Redução da vontade de sair ou participar de atividades presenciais, como passeios, encontros com familiares e brincadeiras com outras crianças;
Preferência por ficar isolada utilizando dispositivos eletrônicos, evitando interações com familiares e amigos;
Dificuldade de responder quando é chamada ou de se desconectar da tela;
Reclamações de cansaço visual, dores de cabeça ou desconfortos físicos, como dores no corpo por permanecer muito tempo na mesma posição;
Redução da vontade de sair ou participar de atividades fora do ambiente digital.
Diante disso, é importante encontrar um equilíbrio, respeitando o tempo de exposição recomendado para cada faixa etária. Afinal, quando as telas passam a ocupar grande parte da rotina da criança, ela pode ter menos oportunidades de participar de atividades essenciais para o desenvolvimento, como brincadeiras educativas, momentos ao ar livre e interações sociais.
Para evitar problemas à saúde, o ideal é ocupar o tempo da criança com atividades que estimulam o desenvolvimento
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5. Como reduzir o tempo de tela durante as férias
Em vez de apenas proibir o uso de dispositivos, as pediatras Lucila e Silva recomendam criar uma rotina equilibrada, com espaço para atividades físicas, passeios, descanso e momentos de interação em família. Dessa forma, a criança tem mais oportunidades de convivência e passa a depender menos das telas no dia a dia. Uma estratégia simples, segundo Lucila, é organizar o dia em blocos.
“Pela manhã, alguma brincadeira ou atividade com movimento; à tarde, um período previamente combinado para uso da tecnologia e, à noite, reduzir os estímulos para favorecer o sono. A tecnologia pode fazer parte das férias, mas não deve ocupar todos os espaços da rotina”, destaca.
Outra dica é envolver as crianças na construção da rotina. “Quando elas participam das decisões, tendem a aderir melhor às regras. Vale combinar previamente os períodos de tela e incluir atividades variadas, como brincadeiras ao ar livre, jogos em família, visitas a amigos e momentos de descanso. O ócio também é importante para o desenvolvimento e a criatividade”, pontua Silvia.
Em relação às atividades, vale considerar opções adequadas para cada fase do desenvolvimento. Ainda bebê, os pais podem apostar em práticas como o tummy time (tempo de barriga para baixo), brincadeiras com objetos coloridos para estimular o movimento da cabeça e do olhar, além de conversar, cantar e interagir com a criança. Conforme ela cresce, entram atividades como empilhar blocos, dançar, contar histórias, desenhar, brincar com massinha de modelar, fazer caça ao tesouro e jogos de tabuleiro.
Essas são alternativas simples que, além de afastarem a criança das telas, criam oportunidades de interação e estimulam diferentes habilidades. Para adolescentes, a recomendação é incentivar atividades como a prática de esportes, leitura de livros, momentos de lazer com amigos e até tarefas compartilhadas, como cozinhar em família.
O comportamento dos adultos também faz diferença nesse processo. Eles funcionam como referência para as crianças e, por isso, precisam demonstrar na prática o uso equilibrado da tecnologia. Por isso, momentos em família, como uma refeição, um passeio ou uma brincadeira no fim de semana, podem ser oportunidades para deixar o celular de lado, participar das atividades junto com a criança e priorizar a interação sem a presença constante das telas.
Sempre que possível, é importante que os pais participem das brincadeiras e não usem os celulares nesses momentos
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6. Nem toda tela é igual: quando o uso pode ser positivo
Nem todo contato com as telas é prejudicial. Quando utilizadas de forma equilibrada e com acompanhamento dos responsáveis, elas também podem ser uma ferramenta de aprendizado e entretenimento. Para isso, é importante respeitar as recomendações de tempo de uso para cada faixa etária e priorizar conteúdos educativos e adequados ao desenvolvimento da criança.
A partir dos 2 anos, o ideal é priorizar conteúdos de baixo estímulo, com cores mais suaves, poucos cortes rápidos, ausência de sons muito altos e histórias com propostas educativas. Músicas tranquilas e desenhos curtos que ajudam a criança a reconhecer e lidar com emoções também podem ser boas opções. Já a partir dos 6 anos, filmes infantis assistidos em família e séries com personagens da mesma faixa etária podem fazer parte da rotina. Em todas as idades, é importante que os pais saibam o que está sendo assistido, evitando deixar o dispositivo com acesso livre a qualquer tipo de conteúdo ou permitir longos períodos de navegação sem supervisão.
Chamadas de vídeo com familiares também podem fazer parte da rotina da criança. Como geralmente são momentos curtos e pontuais, de poucos minutos, esse tipo de conexão não costuma representar um risco à saúde dos pequenos, diferente de passar longos períodos consumindo vídeos ou outros conteúdos digitais. Ainda assim, é importante que a tela não substitua as experiências presenciais, como brincadeiras, conversas e momentos de convivência com familiares e amigos.
Em alguns casos, o acesso às telas não é sinal de perigo, como ao fazer videochamadas por poucos minutos
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Com informações do Hospital Sírio-Libanês
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Fonte: Tech Tudo