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“Macumbeiro é do diabo”: justiça manda ‘Papai Noel’ de Nova Trento usar tornozeleira eletrônica

Em Nova Trento, no interior catarinense, o nome de Pedro Leite costuma vir acompanhado de uma imagem simpática: a do morador que todo fim de ano enche a própria casa de luzes, monta exposições com animais e distribui doces e presentes de graça para milhares de crianças. É o homem que se apresenta nas redes […]


Em Nova Trento, no interior catarinense, o nome de Pedro Leite costuma vir acompanhado de uma imagem simpática: a do morador que todo fim de ano enche a própria casa de luzes, monta exposições com animais e distribui doces e presentes de graça para milhares de crianças. É o homem que se apresenta nas redes sociais como “Pedro, o Defensor da Verdade”. Agora, esse mesmo homem, de 60 anos, terá de usar tornozeleira eletrônica e responder a um processo por intolerância religiosa.


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A decisão é da 2ª Vara da Comarca de São João Batista. A juíza Bianca Fernandes Figueiredo recebeu a denúncia do Ministério Público de Santa Catarina, determinou o uso do equipamento por 90 dias e proibiu Pedro de chegar a menos de 500 metros das vítimas e da sede da comunidade religiosa Casa Vó Maria Redonda, um terreiro de umbanda da cidade.

Quem ele é

A fama de Pedro em Nova Trento começou longe das polêmicas. Ele afirma realizar ações para crianças desde 1997 e, nos últimos oito anos, transformou a casa em ponto de visitação no período natalino, sustentado, segundo ele, apenas por doações e pelo trabalho da família, ao lado da esposa, Dolores. A iniciativa rendeu reportagens e visitas de excursões de outros estados. Foi nas redes sociais que ele construiu o personagem “Defensor da Verdade”, presente no Instagram, no Facebook e no TikTok, no qual se apresenta como investigador e publica o que chama de denúncias locais.

ASSISTA AO VÍDEO

O que diz a acusação

Segundo o Ministério Público, o caso começou depois que câmeras de uma capela no interior flagraram, em outubro de 2025, dois homens despejando sacolas que conteriam animais mortos. A partir do episódio, em vez de apenas cobrar a investigação, Pedro teria iniciado uma série de vídeos associando o caso a rituais religiosos e atacando praticantes de umbanda.

Conforme a denúncia, ao longo do mês ele publicou ao menos dez vídeos com esse teor. Em um deles, afirmou: “Esse macumbeiro tem que acabar, vocês não imaginam o que esses macumbeiros fazem”. Em outro, disse: “Macumbeiro é uma religião do diabo”. E ainda: “Isso aí é religião sim, mas é do capeta”. Em uma gravação feita em uma estrada, chegou a apontar qual seria a casa dos supostos responsáveis: “posso afirmar que é 100% que é aqui que faz o massacre”. As legendas das publicações convocavam seguidores a identificar e expor as pessoas, e ele repetia a frase “o recado foi dado”.

Para o Ministério Público, o discurso passou da crítica a eventuais maus-tratos de animais para a perseguição religiosa.

A acusação sustenta ainda que Pedro foi pessoalmente até a sede da comunidade, gravou o local, discutiu com os integrantes se apresentando como investigador e voltou por volta das 22h, ficando à espreita e causando medo nos membros. Por isso, ele responde por incitação ao preconceito religioso, de forma continuada, e por perseguição. O órgão lembra que o sacrifício ritual de animais em cultos de matriz africana é reconhecido como constitucional pelo Supremo Tribunal Federal desde 2019, e pediu a fixação de um valor mínimo de R$ 10 mil para reparação às vítimas, caso ele seja condenado.

O que diz a defesa

A defesa de Pedro Leite pediu a absolvição e, alternativamente, que o caso fosse tratado como injúria simples. Argumentou que as falas nasceram da indignação dele com supostos maus-tratos de animais e estariam protegidas pela liberdade de expressão e pela livre divulgação de convicções religiosas. Sustentou ainda que ele já havia apagado os vídeos e vinha cumprindo as medidas impostas. A juíza, porém, entendeu que essas teses se confundem com o mérito e só podem ser decididas ao longo do processo, com a instrução.

Por que a tornozeleira

A monitoração foi imposta depois de novos episódios relatados já em 2026. Conforme consta no processo, um veículo teria passado em frente à propriedade de uma das vítimas, com o condutor filmando o local, atirando pedras contra os cães e fazendo um gesto que, segundo as ofendidas, lembraria um disparo de arma de fogo. O Ministério Público chegou a pedir a prisão preventiva, mas a juíza considerou a medida desproporcional por ora e optou pela tornozeleira, com reavaliação após 30 dias. A Justiça também mandou a Polícia Civil abrir inquérito para apurar os fatos mais recentes.

Uma audiência de instrução foi designada para 21 de maio, para a oitiva de vítimas e testemunhas. O caso segue em andamento, e Pedro Leite responde em liberdade, com as restrições impostas pela Justiça.



Fonte: Jornal Razão

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